O último trem.

Ontem a noite estava fria. Chovia. Não muito, mas o suficiente para molhar quem estivesse despreparado com aquela chuva repentina.

Era quase meia-noite, eu já estava atrasado. Aquele era o último trem que sairia para Moscou. Quando eu cheguei na estação, ela já estava lá. Mesmo com a má iluminação, e com aquele trench-coat a beleza dela se sobressaía à meia luz naquela estação.

Nem me lembro qual foi a desculpa que lhe dei pelo atraso, mas a verdade é que eu esperava que ela não estivesse lá, por isso demorei para chegar. Tatyanne, a única agente com quem me envolvi era russa. Nem sei se esse era realmente o nome dela. Provavelmente, não. Parou de chover.
Aquela pele alva como a neve, os olhos tão azuis quanto o céu de Saint Petersburgo no verão. E apesar de perigosa e ardilosa, seu toque era o mais quente e amoroso que eu já senti – digno da Mãe Rússia. Aparecia e desaparecia nos becos daquelas cidades como só ela conseguia.
Porém, nem assim podíamos nos ajudar. Eu precisava deixar o país o mais rápido possível, sem que os camaradas dela me capturassem e infelizmente ela não viria comigo.

Eu só queria que aquela maldita guerra acabasse logo.
“- E quem disse que a vida seria fácil”, eu digo a ela.
Tentei me manter frio durante nossos últimos minutos juntos, mas ela se saiu melhor, como sempre.
Infelizmente não tínhamos muito tempo a sós. Estávamos sendo observados por dois agentes, que eu só consegui perceber naquele momento. Acho que ela também, pela reação que teve.
Tentei persuadi-lá a vir comigo no trem que se aproximava, mas ela tinha argumentos e convicções que não me favoreciam. Na verdade, nós dois sabíamos que não tinha como aquele relacionamento dar certo naquela época – lados opostos e mundos diferentes – dizíamos.
Nos abraçamos e nos beijamos. O trem parou. Os agentes saíram das sombras. Ela falou em meu ouvido com aquela voz fria “- Я люблю тебя “ pela primeira e última vez.

Iniciaram um cerco para nos pegar. Tatyanne me olhou com os olhos marejados de lágrimas. Começou a chover. Ela me deu um sorriso que outrora me trazia tantas felicidades e desapareceu nas sombras, na direção de um dos agentes. Eu me escondi até que o maquinista iniciasse a partida com aquela locomotiva pesada. O barulho ensurdecedor permitiu que eu usasse a minha arma para dar fim no outro agente, sem que os poucos civis que restavam na estação notassem. Nos momentos que se seguiram, enquanto eu corria e embarcava no último vagão tentando não cair naquela escuridão, desejei intensamente que a minha doce espiã estivesse logo atrás de mim, para seguirmos juntos e desaparecermos pela Europa… Doce ilusão!
Depois do fim da grande guerra, voltei duas vezes à Rússia.

Em nenhuma delas encontrei a minha Mata Hari. Ás vezes, eu me pego imaginando sobre o que teria acontecido com ela, naquela noite de Julho de 1916. Eu também sonho com o que poderíamos ter sido sem aquela guerra. Mas sem ela, eu também não teria conhecido a minha amada comunista.
Na semana passada, eu esperava um trem em Praga. Já era tarde e eu havia terminado de executar um trabalho. Chovia como antes e aquele era o último trem da noite.

Enquanto eu observava ele se aproximando, sozinho na plataforma, pensei ter visto Tatyanne me observando num ponto escuro da outra plataforma. Eu cheguei a ver seus belos olhos azuis me observando e aquele sorriso angelical mais uma vez…
Acho que depois de 32 anos nessa profissão fazendo o que eu faço, sobrevivendo a duas guerras e vagando pelo mundo sozinho, os fantasmas começam a me assombrar.
Espero que esse pelo menos, venha me buscar logo…

Reencontros

Hoje, encontrei alguém que eu não via há muito tempo. Nossos olhares se cruzaram pouco tempo depois de eu ter subido naquele ônibus. Ela, eu conheci na adolescência, e mesmo após 15 anos, não mudou muito. Apesar de não me recordar de seu nome, eu sabia que era ela.

Não sei se era pelo horário e ela ainda estava sonolenta, ou só não me reconheceu mesmo, mas não tive uma resposta quando a cumprimentei. O ônibus estava cheio e estávamos distantes, mas mesmo que não estivéssemos eu provavelmente não teria me aproximado para puxar conversa. Além de todo o tempo que passou até esse momento, eu nunca fui uma pessoa boa em começar uma conversa e nem de me lembrar de nomes… Aparentemente, eu sou melhor com palavras escritas do que com as faladas, principalmente pelas manhãs, pior ainda numa segunda feira de manhã.

As lembranças duraram desde o ponto onde eu peguei o circular até onde descemos… Sim, descemos no mesmo ponto, uns 45 minutos depois. A coincidência é uma força curiosa…

Ao aproximarmo-nos de nosso ponto final, o ônibus já estava bem mais vazio e ambos estávamos sentados em lugares afastados um do outro. Ela se levantou e enquanto passava por mim, me olhou pelo canto dos olhos e sorriu. Sei disso, porque acompanhei ela, também de soslaio, até passar direto pela minha esquerda, não antes que eu pudesse perceber o seu sorriso, é claro.

Eu me levantei, e fiquei esperando atrás dela até que o ônibus parasse, então, descemos, ambos em silêncio.

Já fora do ônibus seguimos direções opostas, não havíamos nos distanciado muito um do outro, foi quando eu olhei para trás, na direção dela. Para minha surpresa, alegria e euforia (voltei a ser adolescente por um instante), ela também estava me acompanhando com os olhos. Então, ela sorriu e me olhando nos olhos, simplesmente disse “tchau!”