Coisas que eu aprendi sobre o chocolate

Uma matéria sobre chocolates me chamou a atenção esses dias. Tanto que acabei retuitando a postagem. Infelizmente, não era sobre nova marca ou sabor, nem mesmo novos ovos de páscoa e seus valores exorbitantes.

A matéria fala sobre o tráfico e o trabalho escravo infantil nas plantações de cacau na Costa do Marfim (um dos maiores exportadores de cacau do mundo). Se você for um pouquinho só curioso(a), buscando no google por Miki Mistrati, ‘Behind the dark side of chocolate’. Ou as 9 marcas de chocolate envolvidas com fornecedores do fruto do cacaueiro que usam trabalho infantil escravo, vai encontrar matérias, videos e as informações das quais eu estou falando, com mais detalhes e dados.

A Nestlé, grande envolvida nas acusações de compra de cacau de provisores que usam mão de obra escrava, aceitou desde 2012, ser monitorada por organizações sem fins lucrativos para erradicar esse tipo de trabalho, e anunciou que todos os produtos KitKat serão produzidos com cacau de origem sustentável até 2017.

Então, guiado pela mesma curiosidade, resolvi procurar pelas opções que teríamos caso resolvêssemos a partir de agora comprar chocolates de marcas que tem fornecedores seguros, e se isso realmente é possível.

Bom, então desde o começo. Para ser considerado chocolate, a mistura mágica precisa ter 25% de matéria prima proveniente do cacau, como pó, licor e manteiga. Infelizmente nem todas as marcas seguem essa regra. Inclusive, alguns produtos que são vendidos como tendo 50%, 60% ou 70% de puro cacau, não chegam a ter metade do teor prometido na embalagem.
O resultado disso é que, além de pagar caro, você está comendo compound.

Comendo o quê?

Um “compound” (composto), é a mistura de cacau, gordura vegetal e açúcar ou outros ingredientes que barateiem a produção de alimentos que se baseiem no chocolate. Essa mistura geralmente é usada na confeitaria, nos sorvetes, em doces e bombons. E, muitas pessoas nem percebem a diferença entre esse composto e o verdadeiro chocolate, até que se prove do verdadeiro – é uma prática comum direcionada a produtos mais baratos, utilizada no mundo todo.

Além disso, não temos um órgão regulador para fiscalizar a “pureza” dos chocolates, procedência ou que assegure a idoneidade da empresa.

Há outras alternativas?

Sim! Sempre há.

Hoje, com a livre concorrência, temos mais marcas nacionais e estrangeiras, com valores diversificados, misturas e sabores para todos os gostos e bolsos. Se por um lado, não temos a certeza de procedência ou qualidade, por outro temos as opções de tipos, marcas e valores. E claro, a escolha de comprar ou não.

Bem, temos acesso ao conhecimento, direitos e deveres civis como nunca se teve antes na história. Aparentemente, estamos nos conscientizando mais sobre assuntos que eram deixados de lado. Com isso em mente, podemos cobrar mais transparência das autoridades e corporações e exigir o respeito que todos nós merecemos, como clientes e principalmente cidadãos.

Esse texto não fala sobre o boicote ou proibição de venda dessa ou daquela marca/produto. Fala sobre os cuidados que deveriam ser tomados na compra não só do chocolate, mas de qualquer outro produto de origem duvidosa. É sobre conscientização. Até porque, o trabalho escravo é uma realidade aqui e ao redor do mundo. E muitos produtos que adquirimos no dia a dia são provenientes dele.

Não é apenas sobre o cacau (chocolate), no fim das contas. É a forma como ignoramos a realidade e pensamos unicamente em nós mesmos e nossos desejos.

Se todos tivermos em mente a coletividade e  fizermos nossa parte, essa exploração terá um fim mais cedo do quê podemos imaginar.

* Agradecimento pela revisão : Tatiane J. Aniceto.